O Brasil atravessa, nos últimos anos, um dos períodos de maior tensão entre o poder político e as instituições da República.
O bolsonarismo, movimento político construído em torno de Jair Bolsonaro, protagonizou uma sucessão de confrontos com o Supremo Tribunal Federal (STF), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Congresso Nacional e outros setores do Estado brasileiro.
O problema deixou de ser apenas uma disputa política. Em diferentes momentos, integrantes e apoiadores do movimento passaram a questionar a legitimidade de instituições fundamentais da democracia e, especialmente durante o processo eleitoral de 2022, colocaram sob suspeita o sistema eletrônico de votação sem apresentar provas de fraude.
Em julho daquele ano, Bolsonaro reuniu embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada para atacar a segurança das urnas eletrônicas. O TSE posteriormente considerou que o episódio envolveu uso indevido da estrutura pública e determinou sua responsabilização eleitoral. Em junho de 2023, a Corte declarou Bolsonaro inelegível por oito anos.
A escalada não terminou nas urnas.
Em 8 de janeiro de 2023, milhares de pessoas invadiram e depredaram as sedes do Palácio do Planalto, Congresso Nacional e STF, em Brasília. As investigações e processos posteriores passaram a apurar a participação de diferentes grupos e agentes na tentativa de impedir a posse do presidente eleito. �
O episódio expôs até onde pode chegar a radicalização política quando a contestação dos resultados eleitorais transforma-se em rejeição das próprias regras democráticas.
Segundo balanço divulgado pelo STF em abril de 2026, 1.402 pessoas haviam sido responsabilizadas criminalmente pelos atos relacionados à tentativa de golpe e aos acontecimentos de 8 de janeiro. O número inclui diferentes níveis de participação, conforme as investigações e julgamentos realizados pela Corte.
O discurso contra as instituições também atingiu ministros do STF e do TSE, jornalistas e órgãos de imprensa. Em documento publicado pelo próprio TSE em 2022, foram registrados episódios de ataques às instituições, manifestações pelo fechamento do Congresso e do Supremo, além de ameaças relacionadas ao cumprimento de decisões judiciais.
É importante separar, entretanto, o bolsonarismo como corrente política dos atos praticados por indivíduos ou grupos específicos. Nem todo eleitor de Bolsonaro participou de ataques às instituições, e críticas a decisões judiciais fazem parte do debate democrático. O ponto de ruptura está quando a crítica abandona o campo institucional e passa a defender violência, ruptura constitucional ou a rejeição dos resultados eleitorais sem evidências.
O saldo desse processo é uma democracia que precisou gastar enorme energia para defender suas próprias regras.
Instituições que deveriam funcionar como pilares da República passaram a ser tratadas por parte da militância política como inimigas. Ministros viraram alvos. A Justiça Eleitoral passou a ser acusada de fraude. O resultado das urnas foi colocado em dúvida. E, finalmente, os prédios que simbolizam os Três Poderes foram invadidos e destruídos.
O Brasil não pode transformar divergência política em guerra contra as instituições.
Porque quando a política coloca o STF, o TSE, o Congresso, a imprensa e o próprio processo eleitoral permanentemente sob suspeita, quem termina coberto pela lama não é apenas um partido ou um grupo político: é a própria confiança da sociedade na democracia.
E a democracia, ao contrário de qualquer projeto de poder, precisa sobreviver aos seus governos, aos seus partidos e aos seus líderes.

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